Sexta-feira

Flor

p.p.
Segurava a flor com tal delicadeza... assustadoramente volvia os dedos longos em movimentos curtos, convictos, berçando as pétalas brancas no leito gracioso e espalmado de uma mão feminina. O sol reerguia-se em mais um dia, concedendo ao mundo aquela necessária luz que o salva das profundas escuridões, há tempos incumbidas de abraçar em sombra, o mal da criação.
Ela então pensava, vestida de azul celeste – se era possível, medindo o tempo, retornar às águas já passadas nas barreiras do esquecimento. Forçava a cabecinha, e o que via era uma tal confusão de imagens que fluíam numa indistinção insólita; restos familiares e amáveis rompiam a zona de luz e iam-se explodir em montanhas e velas, praias desertas e insetos voadores; o filme que recobrava era o caos originário, maldades pelas águas idas da história.

Mas a flor que lhe doía a mão estabilizava grandemente o seu desespero mudo. Temia fugir-lhe a alma pelas narinas e o que impedia tal acontecimento, ao menos assim lhe parecia, era a força branda que aquela maciez lhe comunicava. “Não haveria de morrer, não hoje. Só morrerei quando assim eu desejar”... e o mar se lhe abria em maravilha.

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