Vivia a vida entre aspas, como dissesse a si mesmo referindo-se a um outro. Ocupou-se, largamente, de um cuidado bem pensado acaso anterior a toda sorte de investidas rumo à felicidade. Só depois de ter casado apercebeu-se de que a vida era repousar sobre certa leviandade; agora, porém, já era tarde demais para voltar atrás.:
Numa manhã preguiçosa, café na cama, beijos no pescoço, enxergou no espelho uns quarenta e tantos anos de grande e envolvente esforço em não se decepcionar. Seus olhos brilhavam, refletindo a luz de cristal que vinha do lustre. O reflexo de suas primeiras rugas sorriu um sorriso gracioso, mas cioso de si e do homem que ao seu lado comia pão com requeijão.
- você me ama?
- amo.
- ama mesmo?
- amo.
- ama muito?
- (...)
Ele engoliu o pão e sua sombrancelha movimentou-se como quem perguntasse o que aquilo significava. Olhou para o teto, sondou a imagem de sua sombra projetada no guarda-roupa. Desentendia. A mulher ergueu-se sobressaltada espalhando migalhas pelo chão do quarto. As mãos encontraram um rosto suado e aflito. Um certo desespero formava-se ali. Vestiu seu vestido vermelho e sentou-se à beira da cama descansando as mãos sobre as coxas, e eram coxas bem formadas e fortes, isto ela sabia. Ele a abraçou por trás, seus braços longos perfazendo seu tronco, num arrepio. Chorou.
- Eu não te amo.
Então, um vento soprou forte e gelado num movimento de reordenação do mundo.

2 comentários:
...
bom de ler...
sensibilidade, sempre...
Os relógios se fazem silentes sempre que o mundo se reconfigura: talvez, ser feliz seja aprender a tornar eterna a suspensão do tempo e jamais retornar à mudança, aos ventos: à roda do sansara.
Lindo texto!
Beijos
Cida
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