Terça-feira

Ressureição

Foi assim:

Sentado na cadeira de espera, após ter esperado quase sempre, ofereceram-me água, que recusei - sabe-me lá de onde a tinham conseguido? Em tempos de cólera, o bom é não facilitar a morte. Mas, passados uns outros minutos, como me apertasse a sede dos desesperados, virei-me para a direita a perguntar:

Dá-me um pouco da tua água?

Não, respondeu-me a mulher que ali estava.

Dá-me um pouco de tua água que vou a morrer de sede!

Não, mais uma vez, não! Que me importa que morras?

Dá-me, então, um pouco de tua vida?

Quê?


Então a beijei, secando-lhe o sangue que, melhor que água, restituiu-me da morte anunciada.

A Noite dos Sem-Desejo

Virtú
Agouro
Passa logo meu tesouro
Na boca da noite.

Voando
Voava
De tão perto escapava
Dos nós dos dedos.

Corpo
Desdouro
Passa logo meu tesouro
Era o sol que dormitava.

Amor
Desejo
Tão escuro que, fatal,
O caminho iluminava.

E os passos, idos
Para não mais.

Se Era?

Se era verão?
Um vento leve secava a umidade das ruas
Espalhando águas em direções opostas;
Ao abrir da noite.

Clarão de luar
Tímido fluxo de luz
Insistindo nos postes sua fixação pela terra;
Corte transversal.

Eu. A janela. O olhar.
Parados sobre famílias invisíveis
A recuperar memórias fugidias
Lançados sobre o mundo, mudos,
Aquietados – eu, meu cigarro e o fogo!

O negrume se estendia
Enquanto os pés batiam, suaves
Num chão empoeirado pelas sutilezas do tempo.
A coruja espiava, solene:
“Cor... cor... corpo... cor... cor”

Coração.
A cidade é um deserto almado expandindo luzes e miragens mirabolantes. E concretas! Passa sob a janela uma moça bem vestida, uma sombra, e os seus olhos apressam-se em sorver a rosa que carrega – altiva e dura, como um rubi. Está feliz, até sorri...

Mas uma chuva fina começa
O mundo nasce: é mesmo espetacular!
O vento paira, solícito
Muita água para se secar
“Comigo ninguém pode”.

Fecho os olhos, ouço o sono
Faço murmurar meu desagrado de fins de outono.
Não penso, estou livre,
Livre, calmo e diverso.
Mudo. Repetido e mudo.

Saudades tamanhas!
Solidão extenuante!
Sofrimento necessário...
Calma, paz, aconchego (?)
Abro os olhos.

Domingo

Inspirações:.:.Quinta!

Seria apenas sono este desfalecimento? Inovo meu ato na respiração desta rotina desastrada e distraída. A ocupação com o futuro é tanta que perco no onírico presente sua substancial realidade. Que escrevo? É poesia? Olho pela janela do trem e a paisagem de inverno me invade. Falta-me a surpresa de descobrir no cotidiano a alegria verdadeira. Ingenuidade genuinamente infantil que recebe seus espaços como dádiva refulgente e brilha os olhos, e restaura a pele. Correr? Sim... correr por entre as árvores deste jardim imenso. Correr para que a morte não me alcance.

Então, morro. Em estado espectral plaino, leve. Livre sobre os telhados das casas. Vejo a vida sob outra perspectiva. Ali! Vejam! Crianças brincam uma cantiga de roda! Felizes alegres numa simplicidade invejável. Não sabem que representam a criação de um mundo. Seu verbo renova a casca áspera da vida, são como embriões. Quando nascerem, poderão voar.

Mas me confundo. Conscientemente. As estradas permanecem sem meus passos. A cantiga continua sem minha voz. Mas o caminho e a canção que engendro, são misteriosos. É algo assim como ter um filho. Saber seus olhos radiantes de curiosidade nesta beleza nascida! Acalenta-lo no colo ritmado pela respiração de uma felicidade real. Hoje vou tomar um banho quente e rezar muito. O deus me atende se eu pedir...

O desafio. A vida. O mistério. Em tudo, o desabrochar das coisas me fascina. Mas há algo errado. Meu peito é todo angústia, minha mente um aglomerado de confusões malaxadas. O que fazer?

Um passado recente anuncia-se. Um amor? Um pedido. Desfaz-se em bruma um desejo aumentado. O tempo há de suceder-me e, num acalanto, revigorar-me? Saudades... Havia construído uma casa pequena sobre um solo danoso. Quando a chuva ferveu seu minuto o caldo místico entornou-se e a casa ruiu. Caí, mergulhado no lago pantanoso, lago azul e verde, revirando suas águas em meu corpo nu, despojado de sensibilidade. Inerte. Logo estaria boiando em sua superfície.

Diabólica separação... redundante. O amor é sempre redundante na constituição desta dor espalmada em saudades e desejos! É posteriormente. Meu cabedal entretristezas é um dia longo, longo, que nunca acaba; e eu caminho na noite sob estrelas cadentes que pulsam seu fogo sobre minha cabeça impertinente. Caminho triste e aquoso, lacrimoso. Como fluído, transmutado num ser que é todo líquido. Então penetro em mim, na terra que sou e o céu me seca, e sou ar. Rarefeito e feito efeito, sou fogo em após, alimentado em sol e em lua. Passam por mim as pedras ou eu passo por elas.

Muito silêncio e reza, pois o deus quando cala é mais que quando fala. Eu morro... morro mesmo, no diário, sempre um pouco – e renasço mais do que quisesse, no instante em que morro. Ainda busco renascer antes de morrer, numa esperança de futuro e vida!

Agora estou com frio. Com frio e com fome. Condensado numa dor disforme, realizando meu corpo num tremor constante e perigoso. E se perco os sentidos?! quem me acolhe? E se perco o sentido? como existo? Estranho escrever meu estado. As palavras não dão conta da plena imagem que se apresenta. Por isso sempre sobra e o que sobra é o intangível, o desesperadamente forte...

O tempo não me acompanha. Não me alcança. Sou lento e rápido demais. E penso e cismo e perscruto maneiras e maneiras de situar-me no instante presente – que já passou – (...) e estou lá e cá, deslocado e desfeitado em ritmo pulsante. O caminho que sigo é extemporâneo. Salto por sobre o chão, leve e dor, mas a liberdade não é pecado.

Hoje vi duas mulheres que flutuam lindamente, dançando um céu azul de poucas nuvens – rompendo a natureza que o deus lhes deu, transgrediam a lei que nos sucede há tempos, a cada ato, que diz: não pode! Isto não pode! E voavam, alegres, refletidas de sol. Em suas faces, toda a força de um espírito livre. Sob os olhos, a grandeza de um mistério insondável. Transcendiam? Seu movimento era Poesia e Esforço. Sua dança, Leveza e Dor. Sua luz era verdadeiramente luz. Quis poder voar assim e retomar meu chão com a velocidade de um espírito livre! Em quantas parte se divide a Realidade? Hoje sou um homem destruído pela ilusão da oferta de mim. Amanhã não sei o que serei.


Desejante

Fragor e sombra!
Quente, deserto,
Desdobra-se, repetido e certo
O som do teu corpo
Ecoando meu desejo.

Assim te vejo.

De mim arrancado,
Múltplo encantado
Dominante em tua beleza,
Em teu prazer iniciado.

(quem dera este sonho
quedasse, realizado).

Mas à minha sombra
Segue-se tua claridade,
E à minha luz sucede o escuro da cidade.

Então, durmo
Para estar bem acordado.

Quinta-feira

Inspirações:.:Quadrilha

Estou como entorpecido. O estranhamento. Hoje me vi no espelho e a imagem refletia sem cessar: eu sou tu. Fusão. Enamoramento. Que posso fazer para que compreendas? Será que deveremos compreender? O imperativo que me sustém é o: viva! O que isso significa? O vazio e o silêncio a esta pergunta são sintomáticos. Para respondê-la, só vivendo... A experiência poética ocorre cotidianemente, é preciso estar atento, é preciso mais, é preciso sonhar!

Dispor-se de energia vital. A força que a tudo supera. Os elementos contraditórios e ambíguos, motivo de riqueza e diversidade. Danem-se os infinitos particulares! Quero um espaço de raiva! Enxergar em mim o que me limita para limitar-me, após, mais largamente, com mais força.

“João pensou que amar fosse fácil. Chamou Ana para ir ao cinema. O filme era bem bobo. Uma história de amor sem pé nem cabeça. Como todas, aliás. Mas João só prestava atenção era nos olhos verdes de Ana, que piscavam lentamente, em serenidade. No filme, os atores se beijavam. Ele quis beijá-la, mas ficou sem jeito. Aproximou, então, sua mão da mão de Ana. Sobressaltou-se, mas guardou o sobressalto. As mãos dançaram mudamente até o fim do filme. Quando o filme acabou, o que ficou foi apenas a dança das mãos”.

E a Lua em sua claridade de fins de junho! Absorve em si os eflúvios de nuvens que a circundam. O cosmo não é sua morada, mas sua roupa, seu manto negro e azul, com estrelas a renovar sua luz à distância e o corte reto de sua toca anelada é o abraço do deus em sua significação máxima.

Não tenho certezas. Daí provém minha liberdade. Sou pleno como uma flor madura em seu encanto. Espontaneamente respiro minha naturalidade. Que mais poderia? Cavalos alados em meus sonhos medonhos... Escuro e morte, e susto e fome... Ao meu solitário quarto recluso e enfastiado – não! Havia descoberto a alegria! Havia amado, se amou, amará, pois quem ama uma ama sempre.

Inspirações::.Tempo Três

A liberdade dói, mas não é pecado. Seria receio? A alegria é o amálgama entre esta dor e minha partilha. Meu instante é vazio de substâncias originantes – mas faz-se assim presente no raciocínio do medo. Espero como em tempo de festa e o doce da vida imagino para o futuro. O devir, no entanto, é agora. Mas quando passa, seu apercebimento constitui uma existência aberta para o precipício que é a vida.

O que quero? O agora é etéreo como a fumaça do cigarro. Vai percorrendo e envolvendo meu olhar perplexo. Ou é como o tempo. Sua matéria abstrata é tão dura! Contá-lo nem é preciso, é desnecessário. Estabelecem-se as coisas que são neste desvio ininterrupto. A evasão. O torto. Mas no amor vibrante se dá o ser do tempo, meu ser no tempo? Nesse ato, nessa entrega, no momento refulgente em que a luz aérea chega-me deste corpo desejante de desejos, aprecio sua matéria, especiaria fina. Seu odor forte e seu gosto salgado para onde confluem todo o andar do tempo e do espaço. Paixão nexo.

No gosto deste café, me descubro. O amargo em contato com minha língua, sua temperatura quente traz-me à memória a fazenda desconhecida que sempre imaginei. E a caneta escorrendo sua tinta no registro deste movimento mágico é o próprio ato amoroso, um gozo sofrido e prazeroso em que deito minha semente à terra para que germine o meu de mim.

Mas fujo. Minha liberdade é plena, não compartimentada. Quero relegar ao meu futuro este presente. Sob o signo da palavra, esboçar realidades e captar desta emergência ontológica a essência pura das ações que me constroem. Basta de raciocínios sofisticados! A vida se apresenta sempre e nunca. Meu corpo respira a vida em sua plenitude. As pernas dançantes dos homens me convidam a dançar. Eu vou? Fui. Penso...

Inspirações::Movimento Dois

O amor o havia embrutecido, então? Nada soube. Experimentando gritos de ódio ao deus, nada sabia. No entanto, contemplar a fúria de uma tempestade o fizera dominar em parte sua própria calma. “Vastíssimo é o mundo. Vastíssimo o céu”, pensava. “E o meu coração que dói assim por não saber como doer coerentemente... Tão limitado é o meu mundo!” obrava. Talvez doer nem fosse dor, talvez a palavra importante seja aquela que não escrevemos.

Calafrios indicam o erro. Se a angústia é a vertigem da liberdade, serei sempre este pássaro sem asas e em queda. Penso tanto em ti. Ou será que em mim, eu penso? Torto de amargura e ira, nem o berro catártico soa como antes. Deixo em mim uma impressão de covardia tão profunda que beira a respeitabilidade. Dizia ontem mesmo que o inferno não existe, pois não pode ser provado. Mas o céu seria real, posto que é visível.
Enriqueço-me atropeladamente, como se o tempo e seu conteúdo sobrevivesse em mim numa espécie de arcabouço inconsciente. Nada pode ser definitivo, mas o tempo é definidor – e da sombra da dor é que retiro a sobrevivência. Tamanha coragem!

E vejam, não digo mais num tom lamentoso, que a sorte inadvertidamente cai sobre as cabeças desesperançadas, num pensamento fixo, ilusório. Mas não afirmo alegremente, a coexistência de minha vontade e do acaso. Te amo? Ora, se amo! Mas de um amor tão repleto de terra que é o silêncio minha forma de beijar-te. Seríamos como o universo? Expandimos o nosso máximo, mas hoje somos a contração dessa matéria original, almejando o ponto originante. Havemos de? Ah, quem dera pudesse envolver-te na luminosidade do meu abraço! Mas meus braços pendem, inertes, e meu peito não há de agasalhar-te.
Calafrios provam nosso eu.

Série Inspirações.: Primeira Grandeza

Antecipo o salto? Rio abaixo fluem as águas sujas de cansaço. Escuras de doer. Impossível calcular precisamente o tempo que levo para atravessá-las. A correnteza, nessa época do ano, é amena. No passado já fora intempestiva. Mas o raso do rio me subverte, sempre. E mergulho meus pés, ao invés da cabeça. Morar aqui seria fácil. Sede não teria. Fome não teria. O corpo necessita mais que água, que alimento? Sim! O corpo necessita águas e alimentos, e isso não é tudo.
Sem pressa, cravo na terra as unhas sadias. A umidade percorre meu sangue, umidifica-me o pensamento. Ficaria meses, ali? Anos e anos se passam ao saber de um dia quando se é água.
Preparo-me, sei. Só isso sei. Para quê? Isso não sei. O tempo é fora de mim, mas já percebo as rugas formarem-se em meu olhar. O reflexo do rio me demonstra, aponta meu rosto reformado pelas correntes. Rio. Sou uma criança. Sorrio. Sou uma criança.
Enfim! Atravessado o rio, é como se o mergulhasse. Não lembro o que lembro, e o que sei é que ergui-me nesse campo essencialmente liberto de poeira e sedução. Sim, a liberdade dói, mas não é pecado. Passado e futuro são recorrentes em meu presente, e a diferença entre ver e tocar, é inexistente.

Transmudado

Em memória de Carlos Drummond de Andrade


Queima um fogo eterno dentro de mim,
No estômago, nos pulmões, no coração...

“é a alma, é a alma”, dizem os cristãos.

Ele me consome, me revira, me excita,
Põe-me angustiado feito o diabo!

“eita, alma boa!”, dizem os cristãos.

É pungente, essa luta me suspende
Sobre os jardins do fogo,
Sobre os negros pastos para os humanos rirem.
Vou revendo e revendo meu destino.

Sobre mim, meu deus,
O imediato pavor de me ver
Tão distantemente desta paixão me consome.

Sob meus pés, meu amor,
Eis meus pés, quentes como brasa quente.
Perco-me e os quero...

O que faço para comê-los?

Revelação

Deu trabalho, mas da mente saiu
Como ternura assídua, enlevo,
Incomodidade desprovida de sinais,
De senso;

Tal fato intacto, derrubada veemente
Fluiu um ar, ou água, ou nova esperança
Retoma o ciclo, tudo torna,

Se possível o conflito entranhado em nós
outros... noite e aurora.

Se o contentamento é larva da felicidade,
Hei de me apegar nesta verdade tardia
Que é o cálice da realidade
Devolvendo e distribuindo imensa alegria.

Variações sobre a Coruja

Que sombra é a sombra que vejo
Contornando a luz dos meus desejos?
Qual densa noite se expandindo
Na profusão dos meus anseios.

Como quando ela me chega,
E bem baixinho, vai me dizendo...

Que mulher, e que segredo!
Tal raridade feita de nuvens.
Respiro o dia e filtro o vento
Para, de noite, tê-la mais dentro.

Como quando ela me ataca,
E bem mansinho, vai me despindo...

Doce meu que do seu corpo
Vai envolvendo a minha boca
Recheando os póros de minha alma,
Faz do meu tempo, só madrugada.

Como quando ela se encaixa
E bem gostoso, vai me gozando...

O dia vai dormindo a noite nos meus sonhos
e sonho o grande espanto que me revela seu ser.
Esfinge espiralada, quão alto é o teu vôo?
Coruja da madrugada, transbordas minhas palavras
De encanto e nudez.
Teu galho é minha morada, espreita meu ventre em ti.
Oh, luz da minha estrela, teu corpo a mim sorri.

Que sombra é a sombra que quero
Berçando o meu nascimento?
Sabendo em mim o fruto
Maduro do meu desejo.

Como quando ela me dorme,
E bem mansinho, vai me engendrando.

Sexta-feira

Flor

p.p.
Segurava a flor com tal delicadeza... assustadoramente volvia os dedos longos em movimentos curtos, convictos, berçando as pétalas brancas no leito gracioso e espalmado de uma mão feminina. O sol reerguia-se em mais um dia, concedendo ao mundo aquela necessária luz que o salva das profundas escuridões, há tempos incumbidas de abraçar em sombra, o mal da criação.
Ela então pensava, vestida de azul celeste – se era possível, medindo o tempo, retornar às águas já passadas nas barreiras do esquecimento. Forçava a cabecinha, e o que via era uma tal confusão de imagens que fluíam numa indistinção insólita; restos familiares e amáveis rompiam a zona de luz e iam-se explodir em montanhas e velas, praias desertas e insetos voadores; o filme que recobrava era o caos originário, maldades pelas águas idas da história.

Mas a flor que lhe doía a mão estabilizava grandemente o seu desespero mudo. Temia fugir-lhe a alma pelas narinas e o que impedia tal acontecimento, ao menos assim lhe parecia, era a força branda que aquela maciez lhe comunicava. “Não haveria de morrer, não hoje. Só morrerei quando assim eu desejar”... e o mar se lhe abria em maravilha.

Quinta-feira

Pathos

Encantamento e rubor.
Queimam-me os ossos

Meus olhos seguem
O teu rastro.

Arrastado
Meu corpo vai,
Leve e repleto
Vento direto.

Sabendo o beijo,
Sabendo a pele,
Sabendo o zelo
dos teus cabelos.

Sonhando alto
Comendo terra
Rasgando em flores
Os teus sabores.

Completos no ar do nosso encontro.

Poema para Iludir Passeios

À amiga Cris Cociuffo


Toda janela é um mundo a ser vencido
Olhe, é um jardim que se revela,
Escolho da cor, a amarela
Enunciando, falsamente, um fim.

Que é começo, é recomeço
Recomeço, sim, a cada flor que se desdobra,
Na ânsia mesma que é tornar-se
Espalma-se em lírios o céu, nunca de fora.

O possuímos, sem sabê-lo, em nosso canto
E nossa fala diz, em verdade, de nossa esfera
Atravessamos, rio acima, o ar da vida
A respirar da amizade que não sacia

Mas adormece...

Então, vivemos
Já não há posse, mas travessias.