Quinta-feira

Transmudado

Em memória de Carlos Drummond de Andrade


Queima um fogo eterno dentro de mim,
No estômago, nos pulmões, no coração...

“é a alma, é a alma”, dizem os cristãos.

Ele me consome, me revira, me excita,
Põe-me angustiado feito o diabo!

“eita, alma boa!”, dizem os cristãos.

É pungente, essa luta me suspende
Sobre os jardins do fogo,
Sobre os negros pastos para os humanos rirem.
Vou revendo e revendo meu destino.

Sobre mim, meu deus,
O imediato pavor de me ver
Tão distantemente desta paixão me consome.

Sob meus pés, meu amor,
Eis meus pés, quentes como brasa quente.
Perco-me e os quero...

O que faço para comê-los?

Revelação

Deu trabalho, mas da mente saiu
Como ternura assídua, enlevo,
Incomodidade desprovida de sinais,
De senso;

Tal fato intacto, derrubada veemente
Fluiu um ar, ou água, ou nova esperança
Retoma o ciclo, tudo torna,

Se possível o conflito entranhado em nós
outros... noite e aurora.

Se o contentamento é larva da felicidade,
Hei de me apegar nesta verdade tardia
Que é o cálice da realidade
Devolvendo e distribuindo imensa alegria.

Variações sobre a Coruja

Que sombra é a sombra que vejo
Contornando a luz dos meus desejos?
Qual densa noite se expandindo
Na profusão dos meus anseios.

Como quando ela me chega,
E bem baixinho, vai me dizendo...

Que mulher, e que segredo!
Tal raridade feita de nuvens.
Respiro o dia e filtro o vento
Para, de noite, tê-la mais dentro.

Como quando ela me ataca,
E bem mansinho, vai me despindo...

Doce meu que do seu corpo
Vai envolvendo a minha boca
Recheando os póros de minha alma,
Faz do meu tempo, só madrugada.

Como quando ela se encaixa
E bem gostoso, vai me gozando...

O dia vai dormindo a noite nos meus sonhos
e sonho o grande espanto que me revela seu ser.
Esfinge espiralada, quão alto é o teu vôo?
Coruja da madrugada, transbordas minhas palavras
De encanto e nudez.
Teu galho é minha morada, espreita meu ventre em ti.
Oh, luz da minha estrela, teu corpo a mim sorri.

Que sombra é a sombra que quero
Berçando o meu nascimento?
Sabendo em mim o fruto
Maduro do meu desejo.

Como quando ela me dorme,
E bem mansinho, vai me engendrando.

Sexta-feira

Flor

p.p.
Segurava a flor com tal delicadeza... assustadoramente volvia os dedos longos em movimentos curtos, convictos, berçando as pétalas brancas no leito gracioso e espalmado de uma mão feminina. O sol reerguia-se em mais um dia, concedendo ao mundo aquela necessária luz que o salva das profundas escuridões, há tempos incumbidas de abraçar em sombra, o mal da criação.
Ela então pensava, vestida de azul celeste – se era possível, medindo o tempo, retornar às águas já passadas nas barreiras do esquecimento. Forçava a cabecinha, e o que via era uma tal confusão de imagens que fluíam numa indistinção insólita; restos familiares e amáveis rompiam a zona de luz e iam-se explodir em montanhas e velas, praias desertas e insetos voadores; o filme que recobrava era o caos originário, maldades pelas águas idas da história.

Mas a flor que lhe doía a mão estabilizava grandemente o seu desespero mudo. Temia fugir-lhe a alma pelas narinas e o que impedia tal acontecimento, ao menos assim lhe parecia, era a força branda que aquela maciez lhe comunicava. “Não haveria de morrer, não hoje. Só morrerei quando assim eu desejar”... e o mar se lhe abria em maravilha.

Quinta-feira

Pathos

Encantamento e rubor.
Queimam-me os ossos

Meus olhos seguem
O teu rastro.

Arrastado
Meu corpo vai,
Leve e repleto
Vento direto.

Sabendo o beijo,
Sabendo a pele,
Sabendo o zelo
dos teus cabelos.

Sonhando alto
Comendo terra
Rasgando em flores
Os teus sabores.

Completos no ar do nosso encontro.

Poema para Iludir Passeios

À amiga Cris Cociuffo


Toda janela é um mundo a ser vencido
Olhe, é um jardim que se revela,
Escolho da cor, a amarela
Enunciando, falsamente, um fim.

Que é começo, é recomeço
Recomeço, sim, a cada flor que se desdobra,
Na ânsia mesma que é tornar-se
Espalma-se em lírios o céu, nunca de fora.

O possuímos, sem sabê-lo, em nosso canto
E nossa fala diz, em verdade, de nossa esfera
Atravessamos, rio acima, o ar da vida
A respirar da amizade que não sacia

Mas adormece...

Então, vivemos
Já não há posse, mas travessias.

Quarta-feira

Espelhos

Esta angústia em mim,
Recorrente mistério; enigma.
É inconsciência em desespero,
Ignorância exagerada.

Não somos mais o sal da terra,
Somos os sem sabores, os sem saberes,
Figuras semi-nuas, silhuetas ancoradas
Numa perene falta de luz.

Ah, minha clareza,
Quer a minha coragem ousadia ou diversão?
As ruas estão cheias de fantasmas submissos,
Seria mais um?

A que assombração poderosíssima nos reportamos?
Todos correm e percorrem, inertes,
Caminhos sem fim para fins sem caminho.

Quanto de pureza ainda se revelará?
Quanto de afeto?
Os meses são rápidos em seus golpes, mas vulneráveis.

Vamos aquiescendo aos desatinos de um tempo sem virtudes.

Esta angústia é minha força
E resistência.
Diz-nos que o amor ainda prevalece,
Que a entrega à teia detestável do egoísmo não é,
Que a humanidade, em dor representada,
É a mesma humanidade, no amor, reinventada.

Frases Frias

Cai o frio.
Me resolvo sondar o vento
Descobrir no ar o tempo
Que expande meu sono.

Na noite constante
Um escuro e trêmulo silêncio.

Olhos aflitos banham-se,
Perdem-se nas águas.
Me deito intranqüilo
Pulsando no ritmo do medo.

A noite na cidade
É um sonho escuro
Espectros invasivos.

Sou um homem incompleto
Buscando nas calçadas
O humano dos pés nas pedras.

Sábado

Acerca do Dia Confuso

Foiquandomedespidemimassimcomoquefrenteaummaramedistrairdemaisdavidaqueleveiatéaquienãopenseiqueerasentirmaisquesentiropensamentoaludiraumrecuotemporalquemerevelaamortedordomaisrefinadoemmimeasorteavernaviosporsepassarporliberdadequandoaverdadeera (?) pouco a pouco fui me separando do que me prendia até me conseguir singularmente encontrar no pátio que havia construído em seu lugar e nunca mais havia de (?) e o fo go que fi ze ra meu es tô ma go ex plo dir em um der ra me de a çú ca res sem fi na li da de mais que a do çar o mal de mim a mar go foi ce for ca mor te fei ção do ce men te a pro pri a da pa ra a o ca si ão que se me a bri ra an te os o lhos se re nos da que la que re ce be ra a mi nha flor tão pre ci o sa e a zul (?) m a s o d e s e j o é t a m a n h o q u e o m e u c o r p o i n c i d e e m o u t r o c o r p o t a n t o b e l o q u a n t o s e d u t o r e p e r i g o s a m e n t e v o u r e s t i t u i n d o a q u e l a f o r ç a q u e d o m a r n o s r e f r i g e r a q u a n d o a p e l e n e m s u p o r t a a s i m e s m a (!)



a b(p) e r t o.

Quinta-feira

Linhas

pequenino poema publicado no Projeto Valises.:


Leio o poema
o poema me vê

Perguntas de Estrebuchar

O que quer?
O que te faz pousar mansamente?
Que sono buscas?
Que sonhos, que despertar?

Coração bate forte
A pele se arrepia
Os olhos flutuam
O espírito divaga.

Que chão te receberia?
Qual céu te iluminaria?
Que lua? nova, cheia?

Mínguas?
Cresces?
Dormes?

Oh, vida... vida boa, boa e má.
A fortuna é o meu respirar.
Quando o ar me preenche de todo,
Quando o mundo te recria a partir do olhar,

É que meu amor carece de mais amor.

Poemeto

O mar
Perfaz o
Caminho da paz
Que quis.

O som
Do mar
Irradia e contagia
Meu sorriso.

Espero formar
Em teu amar
O amor que ri de si.

Não posso perder
Meu sonho e crer
A crença bandida

Que faz morrer a fé.

Domingo

Os fortes

Vivia a vida entre aspas, como dissesse a si mesmo referindo-se a um outro. Ocupou-se, largamente, de um cuidado bem pensado acaso anterior a toda sorte de investidas rumo à felicidade. Só depois de ter casado apercebeu-se de que a vida era repousar sobre certa leviandade; agora, porém, já era tarde demais para voltar atrás.:
Numa manhã preguiçosa, café na cama, beijos no pescoço, enxergou no espelho uns quarenta e tantos anos de grande e envolvente esforço em não se decepcionar. Seus olhos brilhavam, refletindo a luz de cristal que vinha do lustre. O reflexo de suas primeiras rugas sorriu um sorriso gracioso, mas cioso de si e do homem que ao seu lado comia pão com requeijão.
- você me ama?
- amo.
- ama mesmo?
- amo.
- ama muito?
- (...)
Ele engoliu o pão e sua sombrancelha movimentou-se como quem perguntasse o que aquilo significava. Olhou para o teto, sondou a imagem de sua sombra projetada no guarda-roupa. Desentendia. A mulher ergueu-se sobressaltada espalhando migalhas pelo chão do quarto. As mãos encontraram um rosto suado e aflito. Um certo desespero formava-se ali. Vestiu seu vestido vermelho e sentou-se à beira da cama descansando as mãos sobre as coxas, e eram coxas bem formadas e fortes, isto ela sabia. Ele a abraçou por trás, seus braços longos perfazendo seu tronco, num arrepio. Chorou.
- Eu não te amo.
Então, um vento soprou forte e gelado num movimento de reordenação do mundo.

Sábado

Homem e Destino

Ao amigo Octávio Weber,


Vai-se o homem ao seu destino
e caminha como em direção a um espelho
Vai-se o homem ao seu desejo
(caminha sempre em vias de encontrar-se).

Volve o homem já bem posto
em movimentos de inovar-se
Volve o homem só, sozinho
Para, aos seus amigos abraçar-se.

Quarta-feira

Instâncias

Já não é Poesia o que busco
Esta já me tem alcançado
Ora prendo-me a algo maior
Embaraçado entre os fios de meus cabelos
E meu queixo baixo.

Nem seria um ser almado
Posto que a alma é algo velho
Mas a um inteiro corpo que se mostra
Frente ao espelho.